sábado, 26 de abril de 2014

A Surpresa De Uma Descrição e Mais Alguns Versos - Adinailton Sales

A Surpresa de Uma Descrição e Mais Alguns Versos
Sempre tive boas referências sobre ele, era bastante carismático, alegre e determinado, um belo sorriso no rosto e uma energia espantosa.
Percebi que depois de um tempo, o mesmo estava muito mais compenetrado em seus afazeres e que não aparentava problemas.
Como não o conhecia tão bem, preferi apenas observar algumas atitudes que me chamavam atenção nele. Aparentava ser uma boa pessoa para ter uma amizade duradoura.
Os dias se passavam depressa demais e o único tempo em que o via era na sua mesa de computador, sem piscar os olhos, sempre concentrado. Na hora do almoço, todos saiam e ele era o último a se levantar. Almoçava num restaurante que todos diziam que não era agradável e em seu prato, sempre tinha muita cor, "acho que isso faz bem". Engraçado é que nunca fui de reparar em uma pessoa assim, se meu esposo imaginasse algo do tipo ficaria furioso e o seu ciúme acabaria nossa relação. Eu às vezes me pergunto por que fico pensando isso, já que não tenho interesse nele, apenas curiosidade de saber o que o mantém tão concentrado. Era quase impossível encontrar um erro em suas digitações, seus textos eram extremamente bem pontuados e alinhados, muito limpos e com o arranjo de página muito "clean".
Quando voltava do almoço, ninguém tinha chegado. Isso me intrigava porque eu nunca o via voltar do almoço. E suas palavras sempre suaves e aquele sorriso, como se dissesse que sua vida era perfeita. Nossa, eu realmente me incomodava com aquilo.

Nas festas da empresa, sempre muito elegante, extremamente sociável e misterioso, já que ninguém sabia sobre sua vida. Foi em uma dessas festas que resolvi me apresentar, claro que com a presença do meu marido, eu não o conhecia tão bem, não saberia do que ele era capaz.
Sentamos-nos em uma mesa onde alguns casais estavam e o chamei, uma breve apresentação foi feita já que ele era novo na empresa. Cada membro da nossa equipe perguntou sobre alguma coisa, e eu curiosa que sou, perguntei sobre a sua esposa ou namorada. Foi ai que ele sorriu discretamente e disse que estava solteiro fazia um tempo.

Na semana seguinte resolvi então ser uma das últimas a sair para o almoço e quando percebi que ele estava tirando o fone de ouvido para se levantar perguntei se ele ia almoçar e se eu o incomodaria se o acompanhasse. Ele sempre cordial, sorriu mais uma vez e disse que de forma alguma, seria uma honra. Seguimos então para o almoço e no caminho sugeri o mesmo restaurante que ele costumava comer, ele espantado me disse com certa empolgação que adorava a comida daquele lugar. Eu estava receosa, pois desconhecia tal sabor da comida e pedi que ele fizesse o meu prato, pois estava enjoada da mesma comida. Sentamos-nos e começamos a conversar, e sem que eu percebesse fiz inúmeras perguntas.
Comecei perguntando o que ele ouvia, e ele me respondeu com uma pergunta, você quer que eu faça uma lista das músicas que ouço? Prontamente respondi entusiasmada e curiosa. Em seguida enquanto o observava tocando delicadamente o talher e o levando a boca, perguntei sobre as suas outras atividades do dia, e mais uma vez ele me respondeu com uma pergunta, sugerindo que eu e o meu esposo fossemos a um lounge, próximo a sua casa. Eu ainda curiosa pude imaginar que ele tocava algum instrumento e por isso o convite, e aceitei o convite. Quando ia iniciar a outra pergunta, ele me interpelou e me fez uma pergunta que me deixou extremamente sem jeito. – “Porque existe tanta pergunta para mim, se eu ao menos imagino suas intenções?”. Imediatamente me desculpei e comecei a revelar minhas indagações, mas antes comecei a minha defesa, dizendo: Não quero quem pense que exista interesse da minha parte para com você, pois sabes que sou uma mulher casada. Mas sua postura desperta em mim um curiosidade. Sempre observei seus gestos durante o trabalho, e este lugar que você almoça, já que dizem que o sabor não é tão agradável. E antes que eu continuasse, ele me perguntou se eu estava gostando da comida, respondi que sim e que a seleção de sabores ficou bem agradável. Ele continuou dizendo: Imagino que seja curioso mesmo um homem sem muitas palavras durante o trabalho e muitos sorrisos para todos, vamos lá o que quer saber?
Fiquei meio atônita com a pergunta, mas continuei estimulando-o para que minha curiosidade fosse sanada. Acredito que após tantas perguntas, consegui convencê-lo de que eu estava apenas disposta a conhecê-lo sem intenções. Foi ai que ele decidiu falar sobre sua vida, mas nosso horário de almoço estava se esgotando, então sugeri que no dia seguinte almoçaríamos novamente. Contudo era uma sexta feira e só nos encontraríamos na próxima segunda. Ao final do expediente fui surpreendida com um envelope sobre a minha mesa, que nele tinha um cd, escrito a mão “A Song For You” que traduzido diz “Uma Canção Para Você”, olhei para a mesa dele e ele já não estava mais lá. No caminho de casa, fui escutando o tal cd e quando me dei conta estava lembrando sobre a minha vida, minhas inspirações e minhas expectativas, no cd apenas continha uma música somente instrumental, completamente envolvente e tranquila, que durou exatamente a distancia do meu trabalho para casa.
Na segunda-feira nos vimos, agradeci logo no inicio da manhã pelo cd e ele me perguntou se eu havia gostado, respondi mais uma vez sorrindo que sim, e sem que ele percebesse passei o dia escutando a mesma música enquanto trabalhava. Na pausa para o almoço fomos almoçar e ele começou a falar sobre sua vida. E eu mais uma vez sem perceber, enquanto ele dizia sobre seus amores frustrados, sua força para continuar vivendo em busca de uma tranquilidade, deixei que uma lágrima saísse dos meus olhos.

Voltamos do almoço e eu me sentia triste e menos curiosa, mas muito pensativa. Escreveria um livro com aquela linda história. Sempre muito confiante, deixei que muitas pessoas entrassem em minha vida, sem perceber que aquilo me consumia. Acreditei em muitos sorrisos, muitos abraços e muitos olhares atrativos. Tive inúmeras decepções amorosas e me perguntei se o problema estava em mim. Foi ai que eu descobri que eu tinha um medo, o medo da solidão. E quando me vi naquela situação, dependente de uma companhia me senti o homem mais infeliz do mundo. Decidi a partir daquele dia colocar tudo aquilo que sentia, como inspiração para minhas conquistas e meus maiores desejos, e encontrei entre longos caminhos que algo me tranquilizava, a música. Foi nela que me senti completo, preenchido e seguro. Hoje vivo assim, ora repleto de pessoas a minha volta, e me sentindo sozinho e ora sozinho e me sentindo completo.

Depois de todas as suas palavras permanecerem em minha mente como uma música, não conseguia parar de pensar o quanto uma pessoa me definia tão perfeitamente e com tanta descrição. Minha tristeza era não poder dizer que eu sabia como ele se sentia, já que eu demonstrava ser tão confiante e feliz com meu esposo e com o meu trabalho. Foi ai que quando nos despedimos no trabalho, ele me surpreendeu mais uma vez e me disse que sabia que aquele sorriso e tamanha empolgação das minhas atividades eram tudo uma fuga dos meus medos. Pediu-me desculpa, por dizer à verdade que ele imaginava e eu respondi desmotivada, que não tinha problema. E sua ultima frase foi, “Eu aprendi a ver uma canção pra vida, pois ela sempre me surpreendeu com uma verdade que eu não admitia, e hoje ela canta pra mim”. Ao menos é uma forma menos dolorosa de dizer a mim, que eu devo estar preparado para as inconstantes e longas ruas que ela possui.


Adinailton Sales Lima

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