A
Surpresa de Uma Descrição e Mais Alguns Versos
Sempre tive boas referências sobre ele,
era bastante carismático, alegre e determinado, um belo sorriso no rosto e uma
energia espantosa.
Percebi que depois de um tempo, o mesmo
estava muito mais compenetrado em seus afazeres e que não aparentava problemas.
Como não o conhecia tão bem, preferi
apenas observar algumas atitudes que me chamavam atenção nele. Aparentava ser
uma boa pessoa para ter uma amizade duradoura.
Os dias se passavam depressa demais e o
único tempo em que o via era na sua mesa de computador, sem piscar os olhos,
sempre concentrado. Na hora do almoço, todos saiam e ele era o último a se
levantar. Almoçava num restaurante que todos diziam que não era agradável e em
seu prato, sempre tinha muita cor, "acho que isso faz bem". Engraçado
é que nunca fui de reparar em uma pessoa assim, se meu esposo imaginasse algo
do tipo ficaria furioso e o seu ciúme acabaria nossa relação. Eu às vezes me
pergunto por que fico pensando isso, já que não tenho interesse nele, apenas
curiosidade de saber o que o mantém tão concentrado. Era quase impossível
encontrar um erro em suas digitações, seus textos eram extremamente bem
pontuados e alinhados, muito limpos e com o arranjo de página muito "clean".
Quando voltava do almoço, ninguém tinha
chegado. Isso me intrigava porque eu nunca o via voltar do almoço. E suas
palavras sempre suaves e aquele sorriso, como se dissesse que sua vida era
perfeita. Nossa, eu realmente me incomodava com aquilo.
Nas festas da empresa, sempre muito
elegante, extremamente sociável e misterioso, já que ninguém sabia sobre sua
vida. Foi em uma dessas festas que resolvi me apresentar, claro que com a
presença do meu marido, eu não o conhecia tão bem, não saberia do que ele era
capaz.
Sentamos-nos em uma mesa onde alguns
casais estavam e o chamei, uma breve apresentação foi feita já que ele era novo
na empresa. Cada membro da nossa equipe perguntou sobre alguma coisa, e eu
curiosa que sou, perguntei sobre a sua esposa ou namorada. Foi ai que ele
sorriu discretamente e disse que estava solteiro fazia um tempo.
Na semana seguinte resolvi então ser uma
das últimas a sair para o almoço e quando percebi que ele estava tirando o fone
de ouvido para se levantar perguntei se ele ia almoçar e se eu o incomodaria se
o acompanhasse. Ele sempre cordial, sorriu mais uma vez e disse que de forma
alguma, seria uma honra. Seguimos então para o almoço e no caminho sugeri o
mesmo restaurante que ele costumava comer, ele espantado me disse com certa empolgação
que adorava a comida daquele lugar. Eu estava receosa, pois desconhecia tal
sabor da comida e pedi que ele fizesse o meu prato, pois estava enjoada da
mesma comida. Sentamos-nos e começamos a conversar, e sem que eu percebesse fiz
inúmeras perguntas.
Comecei perguntando o que ele ouvia, e
ele me respondeu com uma pergunta, você quer que eu faça uma lista das músicas
que ouço? Prontamente respondi entusiasmada e curiosa. Em seguida enquanto o
observava tocando delicadamente o talher e o levando a boca, perguntei sobre as
suas outras atividades do dia, e mais uma vez ele me respondeu com uma
pergunta, sugerindo que eu e o meu esposo fossemos a um lounge, próximo a sua
casa. Eu ainda curiosa pude imaginar que ele tocava algum instrumento e por
isso o convite, e aceitei o convite. Quando ia iniciar a outra pergunta, ele me
interpelou e me fez uma pergunta que me deixou extremamente sem jeito. –
“Porque existe tanta pergunta para mim, se eu ao menos imagino suas intenções?”.
Imediatamente me desculpei e comecei a revelar minhas indagações, mas antes
comecei a minha defesa, dizendo: Não quero quem pense que exista interesse da
minha parte para com você, pois sabes que sou uma mulher casada. Mas sua
postura desperta em mim um curiosidade. Sempre observei seus gestos durante o
trabalho, e este lugar que você almoça, já que dizem que o sabor não é tão
agradável. E antes que eu continuasse, ele me perguntou se eu estava gostando
da comida, respondi que sim e que a seleção de sabores ficou bem agradável. Ele
continuou dizendo: Imagino que seja curioso mesmo um homem sem muitas palavras
durante o trabalho e muitos sorrisos para todos, vamos lá o que quer saber?
Fiquei meio atônita com a pergunta, mas
continuei estimulando-o para que minha curiosidade fosse sanada. Acredito que
após tantas perguntas, consegui convencê-lo de que eu estava apenas disposta a
conhecê-lo sem intenções. Foi ai que ele decidiu falar sobre sua vida, mas
nosso horário de almoço estava se esgotando, então sugeri que no dia seguinte
almoçaríamos novamente. Contudo era uma sexta feira e só nos encontraríamos na
próxima segunda. Ao final do expediente fui surpreendida com um envelope sobre
a minha mesa, que nele tinha um cd, escrito a mão “A Song For You” que
traduzido diz “Uma Canção Para Você”, olhei para a mesa dele e ele já não
estava mais lá. No caminho de casa, fui escutando o tal cd e quando me dei
conta estava lembrando sobre a minha vida, minhas inspirações e minhas
expectativas, no cd apenas continha uma música somente instrumental, completamente
envolvente e tranquila, que durou exatamente a distancia do meu trabalho para
casa.
Na segunda-feira nos vimos, agradeci
logo no inicio da manhã pelo cd e ele me perguntou se eu havia gostado,
respondi mais uma vez sorrindo que sim, e sem que ele percebesse passei o dia
escutando a mesma música enquanto trabalhava. Na pausa para o almoço fomos
almoçar e ele começou a falar sobre sua vida. E eu mais uma vez sem perceber,
enquanto ele dizia sobre seus amores frustrados, sua força para continuar vivendo
em busca de uma tranquilidade, deixei que uma lágrima saísse dos meus olhos.
Voltamos do almoço e eu me sentia triste
e menos curiosa, mas muito pensativa. Escreveria um livro com aquela linda
história. Sempre muito confiante, deixei que muitas pessoas entrassem em minha
vida, sem perceber que aquilo me consumia. Acreditei em muitos sorrisos, muitos
abraços e muitos olhares atrativos. Tive inúmeras decepções amorosas e me
perguntei se o problema estava em mim. Foi ai que eu descobri que eu tinha um
medo, o medo da solidão. E quando me vi naquela situação, dependente de uma
companhia me senti o homem mais infeliz do mundo. Decidi a partir daquele dia
colocar tudo aquilo que sentia, como inspiração para minhas conquistas e meus
maiores desejos, e encontrei entre longos caminhos que algo me tranquilizava, a
música. Foi nela que me senti completo, preenchido e seguro. Hoje vivo assim,
ora repleto de pessoas a minha volta, e me sentindo sozinho e ora sozinho e me
sentindo completo.
Depois de todas as suas palavras
permanecerem em minha mente como uma música, não conseguia parar de pensar o
quanto uma pessoa me definia tão perfeitamente e com tanta descrição. Minha
tristeza era não poder dizer que eu sabia como ele se sentia, já que eu
demonstrava ser tão confiante e feliz com meu esposo e com o meu trabalho. Foi
ai que quando nos despedimos no trabalho, ele me surpreendeu mais uma vez e me
disse que sabia que aquele sorriso e tamanha empolgação das minhas atividades
eram tudo uma fuga dos meus medos. Pediu-me desculpa, por dizer à verdade que
ele imaginava e eu respondi desmotivada, que não tinha problema. E sua ultima
frase foi, “Eu aprendi a ver uma canção pra vida, pois ela sempre me
surpreendeu com uma verdade que eu não admitia, e hoje ela canta pra mim”. Ao menos
é uma forma menos dolorosa de dizer a mim, que eu devo estar preparado para as
inconstantes e longas ruas que ela possui.
Adinailton
Sales Lima
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